Qual a relação entre crack e maconha?

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A colunista questiona se não seria a utilização da cannabis uma opção terapêutica oportuna no enfrentamento de um problema tão grave como é a dependência de crack (Foto: Arquivo pessoal)

Coluna de Solange Aparecida Nappo*

Inicio essa temporada fazendo uma pergunta: qual a relação que existe entre crack e maconha? Até há pouco tempo eu diria que a única coisa que estabelece uma ponte entre essas duas drogas é o fato de ambas serem proibidas no Brasil. Mas se essa é a resposta, não tem nenhum sentido fazer a pergunta, já que a grande maioria das pessoas tem conhecimento desse dado, que, em parte, está correto. Então, qual é a outra parte da resposta?

Para a curiosidade ficar mais aguçada, lanço aqui um dado obtido pela Fiocruz no levantamento nacional sobre uso de crack: cerca de 70% dos que usavam crack, o associavam maconha. E por que associavam maconha quando consumiam crack? Esse fato era bem intrigante para mim e decidi ir a campo conversar com essas pessoas para entender qual era a razão dessa combinação.

Cerca de 70% dos que usavam crack, o associavam maconha. E por que associavam maconha quando consumiam crack? Para minha surpresa, as respostas me trouxeram esperança e alento. Todos disseram que a maconha diminuía vários efeitos produzidos pelo crack como: a fissura que é um dos sintomas mais críticos para o estabelecimento do uso compulsivo, dependência do crack e recaídas.

Para minha surpresa, as respostas me trouxeram esperança e alento para o enfrentamento da dependência de crack. Todos disseram que a maconha diminuía vários efeitos produzidos pelo crack como: a fissura que é um dos sintomas mais críticos para o estabelecimento do uso compulsivo, dependência do crack e recaídas. A pessoa que usa crack tem um desejo incontrolável da droga, levando-a a um consumo incessante; à paranoia ou psicose, sintoma psiquiátrico muito grave, o qual causa alucinações, desorganização dos pensamentos, ilusão de perseguição; a depressão, associada a um sentimento de grande angústia pode levar alguns a cometerem suicídio em função desse quadro.

Todos esses sintomas citados levavam a pessoa que usa crack a consumir mais a droga na tentativa de diminuir esses efeitos tão negativos.  Mas com o uso da cannabis, esses efeitos tinham intensidade atenuada ou em alguns casos nem se manifestavam, repercutindo numa redução da vontade de consumir a droga.

Esse fato se refletia em menor gasto com crack e menor envolvimento em atos perigosos para conseguir dinheiro para a compra da droga. Alguns relataram que abandonaram o crack e passaram a fumar somente maconha (redução de danos, substituíram uma droga que causa danos graves por outra com um espectro de danos bem mais leve).

Esse fato se refletia em menor gasto com crack e menor envolvimento em atos perigosos para conseguir dinheiro para a compra da droga. Alguns relataram que abandonaram o crack e passaram a fumar somente maconha (redução de danos, substituíram uma droga que causa danos graves por outra com um espectro de danos bem mais leve).

Enfim, o ganho de qualidade de vida foi enorme devido à ação protetora da cannabis. Recorri à literatura científica para entender melhor e aí dei mais crédito aos relatos dessas pessoas, pois os fitocanabinoides presentes na cannabis interferem de forma benéfica nesses sintomas. Um considerável número de estudos pré-clínicos e clínicos têm demonstrado fortes evidências de que os fitocanabinoides são agentes promissores no tratamento de várias patologias psiquiátricas como depressão, ansiedade, dependência, stress pós-traumático, doenças neurodegenerativas, etc. O canabidiol, o princípio ativo mais importante da cannabis, é um potente agente antipsicótico, ansiolítico, e antidepressivo como mostram os estudos. 

Não seria uma grande oportunidade, no enfrentamento de um problema tão grave como é a dependência de crack, a utilização da cannabis como uma opção terapêutica?  A resposta a essa pergunta fica ainda mais urgente quando encaramos a realidade sobre os tratamentos disponíveis para dependência de crack, os quais tem baixa eficácia

Não seria uma grande oportunidade, no enfrentamento de um problema tão grave como é a dependência de crack, a utilização da cannabis como uma opção terapêutica?  A resposta a essa pergunta fica ainda mais urgente quando encaramos a realidade sobre os tratamentos disponíveis para dependência de crack, os quais tem baixa eficácia. Tanto assim, que a literatura científica mostra que cerca de 70 a 90% dos usuários de crack, que passaram por tratamentos, recaem ao uso da droga nos primeiros três meses de abstinência após esse período. 

Considerando ainda todo prejuízo físico, psíquico, social e econômico que o crack produz em quem o consome, é um desperdício, sem justificativa, ignorar as evidências científicas dos benefícios que os fitocanabinoides podem produzir nesse campo de dependência de drogas.  Enquanto a cannabis medicinal avança a passos lentos no país, os usuários de crack, de maneira totalmente empírica e sem nenhuma garantia de qualidade em relação ao que estão usando, vão fazendo tentativas para minimizar os efeitos da dependência dessa droga.

*Solange Aparecida Nappo é professora universitária, Pesquisadora Científica do CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) e colunista do Sechat.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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