Ficar de olho no lado emocional pode garantir mais saúde e vida plena

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(Imagem: Arquivo/Sechat)

Por Jimmy Fardin

A residência médica foi uma das experiências de maior resistência física e emocional que pude passar na minha vida. Nada que eu expresse com orgulho, porque nem de longe os médicos que passam por isso conseguem oferecer, absorver o melhor, sendo humilhados e tão exigidos quando o seu corpo já não aguenta mais.  Trabalhava de 90 a 120 horas por semana e quando chegava em casa era recebido pela minha filha, Alice, que na época tinha um ano e meio de vida. 

O  seu sorriso  era um dos meus maiores combustíveis para seguir adiante, e lá ia eu para mais um plantão desta vez em casa. Abrindo um parênteses  para o fato de que eu queria participar do início da vida dela o máximo que eu pudesse. Não queria ser um pai apenas “ajudante”.  Cheguei a questionar os meus chefes sobre a falta de tempo para estudar e lembro de ter escutado: “o que você faz de meia noite a sete?”

Espero que você, meu leitor, esteja nesse período, dormindo, deixando sua melatonina ser produzida e tendo um sono mais reparador e saudável ( a cannabis atua regulando esse hormônio também).

Foi por meio desse ritmo imprimido pela residência, durante três anos, que fui para o mercado de trabalho .Uma jornada de 80 horas semanais, sabendo que eu não podia diminuir muito o ritmo, afinal, precisava fazer um “nome”, construir uma “ carreira”, e pagar as contas.

Para trabalhar eu passava pela praia da Barra. Mas não tinha tempo nem para apreciar aquele paraíso, para enxergar, para sonhar com a possibilidade de voltar a surfar naquelas ondas. Olhar para aquele mar não me dizia nada… Hoje, meus filhos já sabem que o papai adora e,  quando passamos perto do mar, o meu caçula me olha e diz: “Olha lá pai, tem onda pra você surfar!”.

Foi nesse período que ele nasceu, Romeo, e que eu precisei trabalhar mais ainda. Eu poderia viver sem ver os meus filhos crescerem? Sem surfar? Sem me alimentar bem? Poderia?

Não. Nós não podemos! Ou melhor não deveríamos! 

Foi assim que deixei o Rio de Janeiro para trás e fiz uma escolha por uma vida com mais qualidade. Hoje trabalho 40 horas semanais e nenhum mar passa despercebido por mim. Surfo  às 5 da manhã e já sou conhecido na região por estar cedo no mar. Há anos tenho essa rotina e, quando chego na areia, já sei que o mar está me esperando. Eu e ele. Eventualmente um conhecido ou outro vai chegando. 

Há uns meses, eu chegava lá no meu horário sagrado e já tinha uma cabecinha no mar. Dia após dia, essa cena foi se repetindo e fui conhecendo o meu novo companheiro de surf. Existe uma magia que o mar proporciona de tornar as pessoas que surfam em amigos. 

O João, se tornou um. Entre uma onda e outra ele foi me trazendo toda a sua disciplina com relação à alimentação, Yoga, meditação e seu ritual reverenciando o mar. A importância da respiração e sua aplicação na performance… escutá-lo me faz refletir muito sobre otimizar meu condicionamento… fora que é carioca com um sotaque carregado que me faz relembrar minhas origens.

Há alguns meses, João sumiu do mar e comecei a sentir falta do meu camarada. Depois de umas duas semanas encontrei ele no caminho da escola dos meus filhos e me disse que estava se recuperando de uma gripe forte e que agora estava sentindo algo estranho na região do mediastino (coração). Um “aperto esquisito”, relatou.. Resolvi investigar, examinei-o clinicamente, sem achar qualquer alteração, pelo contrário, batimento cardíaco de 45/50, coração de atleta! Solicitei exames de sangue, radiografias e tudo só confirmava:  super saudável

O que poderia estar errado? O que poderia não estar funcionando?

Conversando mais a fundo me confessou o que estava passando, que nos últimos meses tinha feito muitas mudanças na vida com incertezas e desafios e não estava sabendo lidar sozinho. Nesse momento, percebi que o problema estava no emocional, que apesar de ter um corpo atlético e práticas mentais regulares, o seu emocional dava sinal de alerta.

Quantos de nós não leva em consideração o emocional? A nossa história, os nossos traumas! Hoje já temos comprovações científicas do quanto as doenças têm fundo emocional e da importância de nos disponibilizarmos para investigar.

O cortisol, um hormônio importantíssimo para momentos de estresse no corpo (luta e fuga), é produzido diariamente pela supra renal, importante no controle do sistema imunológico e intimamente ligado ao sistema emocional. Mas quando em excesso gera um desequilíbrio na homeostase corporal levando a alterações que muitas vezes não se consegue decifrar propiciando  uma busca incessante por um diagnóstico.

Vários neurotransmissores cerebrais e intestinais como a serotonina, adrenalina e dopamina serão afetados com esse desequilíbrio, como aconteceu com o João. Essa angústia, ou desconforto que ele estava sentindo após vários exames vem cessando com terapia e com um período breve de cannabis oral. 

Eu trabalho muito com atletas que estão no limite de funcionamento do corpo. Há uma linha tênue entre a máxima performance e o desequilíbrio.

Por mais que pareçam ser super saudáveis, os atletas necessitam de um autoconhecimento primoroso. Esse colega, mesmo com práticas super saudáveis e alinhamento com atividade física, alimentação e meditação/Yoga, não estava alinhado com seu processo interno emocional. Não se permitia muitas vezes expressar um sentimento,, pois principalmente os homens são educados desde a infância a guardarem suas emoções. Existe um padrão que vem sendo empregado e institucionalizado por gerações, sem os devidos questionamentos. Gerando uma série de repercussões políticas, sociais, trabalhistas e também na saúde da população. 

A sociedade está adoecendo também por não saber expressar os próprios sentimentos, não se olhar internamente para  entender o que está acontecendo, por isso o alto índice de depressão e ansiedade que se observa, doenças consideradas o “mal do século”.  

As múltiplas possibilidades e o acesso que temos a todo e qualquer tipo de informação sobrecarrega o psicológico das pessoas, essa obsessão por produtividade, por construirmos uma carreira de sucesso como relatei no início… faz com que nos comportamos sem refletir no que de fato precisamos, no que estamos fazendo com as nossas próprias vidas. 

Todo esse ritmo acelerado, essa desconexão consigo próprio, gera culpa, cobrança interna, estresse que desencadeia liberação excessiva de vários hormônios e neurotransmissores desequilibrando a homeostase corporal.

A cannabis é uma poderosa medicina que atua modulando o sistema endocanabinoide, o maior sistema do corpo, e vai atuar amenizando todos esses efeitos, e eu venho evidenciando isso na prática, com meus pacientes.

Entretanto, sozinha a cannabis não vai ser a salvação, o paciente tem que estar aberto a se autoconhecer, disposto a um processo terapêutico de se entender, ocupar seu espaço com responsabilidade, amenizando essa culpa e auto cobrança que somatizada se manifesta em doenças e alterações que superficialmente não serão identificadas.

A propósito, hoje o João além de um amigo, se tornou parceiro de trabalho e juntos preparamos atletas. Ele com a respiração direcionada para melhorar a performance, que é um mundo à parte, e eu com a Medicina Canábica e esportiva. Sou grato pela mudança de vida que fiz lá atrás e sigo remando, me abrindo para o mistério que a natureza  me proporciona. 

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

*Jimmy Fardin é médico ortopedista e traumatologista, com especialidade em cirurgia do joelho e artroscopia, especialista em medicina do esporte, e medicina canábica. Já participou de Olimpíadas e Paralimpíadas como médico. Experiente no tratamento de dor crônica, lombalgia, tendinites, artrose, doenças degenerativas. “Meu objetivo é cuidar de você como ser humano, não só sua patologia”.

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