Que diferença você pode fazer na vida de alguém?

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(Imagem: Arquivo/Sechat)

Por Jimmy Fardin

Em 2016, eu trabalhava em um hospital, no Rio de Janeiro, que era referência para atendimento de atletas das Olimpíadas. Num dia corriqueiro de plantão, atendi uma atleta que havia se acidentado e, a especialidade dela, era corrida com bicicleta. A atleta alemã, era uma das favoritas para a medalha de ouro na sua categoria. 

Como sou fluente em alemão, fui acionado para atendê-la, também por se tratar de um trauma que é minha especialidade. Ela tinha uma lesão no tendão patelar do joelho e teria que ser submetida a um procedimento cirúrgico, ou seja, estaria fora dos jogos olímpicos! 

O estado emocional dela foi o que mais me chamou a atenção, nitidamente não estava entendendo nada do que falavam. Desesperada, ansiosa, porém, sabia que tinha algo grave por sentir a dor e a dificuldade de mobilizar seu joelho. 

Chegar falando a língua que ela se sentia confortável, já fez uma grande diferença. Pude sentir no semblante dela, que ela relaxou e parou para me ouvir. Aquele momento inicial foi fundamental.

Ser empático com uma pessoa que está passando por uma dificuldade e ainda mais se tratando de um caso de saúde,  abre uma conexão entre médico e paciente que poucas profissões proporcionam.

Perguntei sobre sua vida, carreira e o quanto ela se dedicou e ela foi me contando orgulhosa das suas conquistas. Já não era tão jovem, em torno de 45 anos e para o mundo esportivo, acreditem, já está em processo de finalizar a carreira.

Tranquilizei ela quanto ao procedimento cirúrgico, que ela voltaria a pedalar e, certamente, poderia voltar a competir! 

Claro que não seria fácil!

Uma boa equipe multidisciplinar para ajudar na reabilitação seria fundamental e seu esforço pessoal também. 

Quando fui saindo do atendimento, notei uma imagem do Buda em seu pingente. Perguntei se ela era budista e ela me confirmou, dizendo que foi o que fez a diferença para que se tornasse campeã. Intrigado, perguntei como? Ela me relatou que sempre teve o sonho de ser campeã e, quando tinha 20 anos já tinha resultados incríveis, vencia provas regionais e do seu país. Porém quando vinha uma competição de maior importância, ela ficava ansiosa e desconcentrada, perdendo a capacidade de performar na sua melhor versão. Foi então que ela resolveu pesquisar e ver o que os campeões faziam de diferente. Ela percebeu que todos cuidavam da mente! Yoga, meditação, exercícios de mente e corpo, assim, passou a adotar a prática e descobriu o budismo como guia. 

Foi um aprendizado enorme para mim, que lidava com atletas e via que não tinha algo que eu pudesse oferecer para orientar quanto a esse sintoma que afeta a maioria dos atletas, principalmente os de alto rendimento.

Infelizmente, só fui conhecer a cannabis em 2018 e foi uma outra ferramenta que me deu essa possibilidade.

Por ultrapassar a barreira hemato-encefálica, os canabinóides atuam nos receptores cerebrais que os ansiolíticos operam. Assim o atleta consegue controlar melhor sua ansiedade, com uma substância natural, melhorando o sono, que pode ficar muito conturbado nas épocas de jogos.

Com um sono reparador adequado e uma mente tranquila, a cannabis também vai promover uma recuperação muscular, regulando as reações de oxidação e excitotoxicidade e diminuindo os radicais livres. 

Além disso, hoje já uso a cannabis para pós-operatório, diminuindo os opióides e anti-inflamatórios, proporcionando uma recuperação mais confortável, sem tantos efeitos colaterais. 

A conexão foi tão boa que ela me presenteou com o ingresso da final do futebol: Brasil e Alemanha no Maracanã. Ela obviamente não poderia ir e me concedeu sua entrada.

Lembro que enquanto corria para chegar a tempo ao jogo, reafirmava pra mim mesmo o quanto era importante para mim olhar para os meus pacientes individualmente, não somente para o trauma e para a doença. 

O jogo foi incrível, o Brasil ganhou nos pênaltis (um momento crítico, que confirma que a calma e a mente tranquila fazem o atleta se diferenciar). 

Até hoje troco e-mails com essa paciente e já soube que ela conseguiu voltar a competir e ganhar novamente! 

Esse episódio me fez refletir sobre a importância do atendimento “humanizado”, mesmo em momentos críticos de emergência, e como estar atualizado sobre o Sistema Endocanabinóide, coisas que podem fazer a diferença no profissional de saúde e na vida das pessoas. Portanto, de que forma você faz diferença na vida das pessoas?

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

*Jimmy Fardin é médico ortopedista e traumatologista, com especialidade em cirurgia do joelho e artroscopia, especialista em medicina do esporte, e medicina canábica. Já participou de Olimpíadas e Paralimpíadas como médico. Experiente no tratamento de dor crônica, lombalgia, tendinites, artrose, doenças degenerativas. “Meu objetivo é cuidar de você como ser humano, não só sua patologia”.

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