Enviesado ou equilibrado?

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(Imagem: Arquivo/Sechat)

Por Fernando Paternostro

Quanto mais pensamos em um assunto, mais ele aparece para nós em nosso dia-a-dia.  Isso serve para qualquer coisa. Uma grávida, por exemplo, irá ver cada vez mais grávidas  no seu cotidiano e ficará surpresa com as “coincidências”. Se você quiser comprar um  carro específico, só vai enxergar esse carro na rua dali pra frente. E por aí vai. Agora,  imagine você trabalhar com cannabis medicinal, e pensar nisso o dia todo, a quantidade  de ‘sinais’ que não vai encontrar por aí? Pois é, esse é o dilema que penso estar vivendo  atualmente. 

Foi recentemente que estava discutindo com um médico parceiro sobre discursos  enviesados dentro do mercado da cannabis e como isso pode afastar quem não é do  meio. De um lado, ele estava reforçando seu ponto de vista que não existem médicos  prescritores de cannabis medicinal, da mesma forma que não existem médicos  prescritores de dipirona ou de ibuprofeno. O médico tem a sua disposição um arsenal de  medicamentos e produtos, e vai utilizá-los conforme seu critério e conhecimento. Sendo  assim, quando falamos em ‘médicos prescritores de cannabis’ estamos na verdade  afastando os médicos que ainda não conhecem esse universo, e criando ainda mais  espaço entre quem tem esse conhecimento específico e quem está confortável com as  “armas” que tem à sua disposição. 

E de outro lado, estava eu (que não sou médico) argumentando (com meu conhecimento  empírico e autodidata), sobre tudo que já escutei sobre os pacientes de cannabis, e  todas as melhorias que eles relatam. E enquanto estava contando isso pude perceber  como meu discurso é enviesado, mas não no sentido pejorativo, e sim no sentido de  quem gosta muito desse tema. E por gostar tanto desse mercado, acabo por defendê-lo  também com muita energia, o que por um lado é muito positivo, já que tenho mesmo  bastante conhecimento sobre o assunto. Mas pude perceber, ao longo da conversa, como  isso acendeu uma luz amarela para o médico que estava conversando. E fiquei me  questionando o porquê disso. 

Vejamos os fatos: os médicos não estudam sobre o sistema endocanabinóide na  faculdade. Também não tem experiência clínica com esses medicamentos ao longo da  vida, e além de tudo não são nem 0,5% dos 500.000 médicos no Brasil que trabalham  com cannabis medicinal. Porém, eles têm a seu lado toda a medicina moderna, os  laboratórios, estudos clínicos e comprovações científicas de décadas e até centenas de  anos de utilização dos fármacos à disposição da sociedade. E então, a cannabis, que tem  seus relatos de utilização dentro da medicina de quase 4.000 anos atrás, aparece em  cena novamente. E carrega todo o estigma da proibição (muito recente), que é rodeada de várias questões comerciais, políticas e econômicas que parecem nada ter a ver com  saúde. O que me leva a pensar: eu, como médico, porque aceitaria entrar nessa e  começar a estudar e prescrever cannabis para meus pacientes? E até que ponto isso é  realmente um fato dentro da medicina? A verdade é que não tenho essas respostas, e  elas levantam ainda mais questões dentro de mim. 

Como devemos trazer a cannabis de volta para o arsenal dos médicos modernos?  

Definitivamente não será dizendo que ela é uma cura milagrosa para todos os problemas,  um elixir, um xarope daqueles antigos que “resolve tudo”. E muito menos criando uma  briga com os anti-inflamatórios, analgésicos e medicamentos atuais que efetivamente tem  seus benefícios clínicos comprovados e estudos sérios por trás. No entanto, a proposta  do tratamento com cannabis acaba gerando esses questionamentos, já que vemos  também uma crise mundial de opióides, por exemplo, que está prejudicando (e matando)  milhares de pessoas pelo mundo afora. 

Seria então uma busca por equilibrar nosso caminho a ser traçado?  

Onde a cannabis é parte da solução, usada de forma pontual em casos específicos, e não  a única solução de todos os problemas da sociedade, que chegou para nos salvar dos  remédios que “estão nos matando”?  

Gosto desse ponto de vista, especialmente como uma autocrítica, e deixo aqui uma  provocação para quem é do setor e trabalha com cannabis medicinal. Vamos pensar mais  sobre como trazer a cannabis para quem não é ervo-afetivo. Vamos quebrar a cabeça  pensando em como mostrar os (tantos) benefícios que ela pode trazer para a vida dos  indivíduos sem transformá-la em algo aspiracional; o famoso hype que é tão perigoso  nesse mundo de trends, trending topics, memes e followers

E aos poucos, ganhando espaço entre os profissionais de saúde, nos valendo das  mesmas metodologias que consolidaram a medicina moderna, como artigos científicos,  estudos clínicos e comprovações médicas baseadas em estudos de casos reais. Acredito  que vai ser com muita paciência que vamos trazer novamente a cannabis para dentro do  repertório dos médicos, e torná-la não uma tendência, mas uma alternativa de tratamento  pontual para quem busca uma vida equilibrada, com mais qualidade de vida e saúde. 

Mais uma vez, conhecimento, estudo e repertório fazem com que a inércia cultural se  transforme em algo do passado, dando lugar ao pensamento crítico e analítico que nos  fez evoluir tanto ao longo da nossa história.  

Bora saber mais pra compartilhar!

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e não correspondem, necessariamente, à posição do Sechat.

Sobre o autor:

Fernando Paternostro é empresário, triatleta, criador do Atleta Cannabis e pai da Flora e da Bella.

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