Dor orofacial e cannabis, entenda a relação

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Por Dra. Cynthia de Carlo

A dor é uma velha conhecida da humanidade e desperta o interesse do homem para tentar explicá-la e tratá-la desde a antiguidade. Em função das descobertas da ciência, a dor deixou de ser vista isoladamente, passou a ser entendida como parte de um sistema complexo e sua cura resultante de processos físicos. Na atualidade é consenso que este fenômeno está sujeito a diversas influências modulatórias, assim como à processos cognitivos e emocionais. A sensação dolorosa é um importante mecanismo para a manutenção da vida, pois exerce função fisiológica de alertar o organismo quanto à ameaças e alterações na sua integridade física, já a percepção da dor é muito subjetiva, assim como a tolerância a ela. A forma como os seres humanos agem e reagem a dor é bem pessoal e depende de um processamento neural complexo, organizado e influenciado por diversos fatores e, portanto, definir o evento doloroso de forma satisfatória se torna um desafio.

De acordo com o tempo de duração a dor pode ser classificada em aguda ou crônica.

A dor aguda tem origem em trauma de tecidos moles ou inflamação e está relacionada com um processo adaptativo biológico para facilitar o reparo tecidual.

A dor crônica persiste além do período esperado de uma alteração patológica ou lesão tecidual no SNC (sistema Nervoso Central) e/ou SNP (Sistema Nervoso Periférico) e é definida com duração superior ao período de 3 a 6 meses. Pode ser desencadeada por manifestação espontânea ou ser provocada por estímulos externos, tem potencial debilitante, provoca impacto elevado sobre a qualidade de vida do paciente e pode ser caracterizada por uma resposta pobre às terapias analgésicas convencionais.

E importante sempre observar a relação entre os dentes, músculos e articulações ósseas. Se estiverem desalinhados, pode resultar em uma doença crônica chamada dor orofacial.

A denominação “dor orofacial” é utilizada na literatura nacional e internacional como termo amplo, e engloba condições dolorosas provenientes da boca e face, próprias da área odontológica, incluindo aquelas historicamente denominadas de “Disfunções da ATM’’ (DTMs), Bruxismos, SAB (Síndrome da Ardência Bucal, Nevralgia de Trigêmeo, dentre outras. As DTMs podem ser definidas como um conjunto de condições dolorosas e/ou disfuncionais, que envolvem os músculos da mastigação e/ou as articulações temporomandibulares (ATMs). O bruxismo é um hábito parafuncional que apresenta uma origem absolutamente multifatorial, expressando-se por desordens funcionais de severas implicações clínicas. A Síndrome da Ardência Bucal (SAB) é uma condição caracterizada pela sensação de queimação da mucosa bucal, sem que uma causa física possa ser detectada. A nevralgia de Trigêmeo (NT) é um tipo de dor neuropática, que acomete a região orofacial, causa quadro doloroso intenso, recorrente e característico capaz de acarretar sérias complicações para a qualidade de vida do portador, pois pode interferir no desempenho profissional, educacional e até com a sua capacidade de interação social.

Os tratamentos e as abordagens odontológicas para as patologias acima vão desde placas oclusais, toxina botulínica, agulhamentos, cirurgias invasivas, farmacoterapia com ansiolíticos, tópicos a base de clonazepam, capsaicina, lidocaína, benzodiazepínicos, anticonvulsivantes, antidepressivos, opioides, que além de trazer sérios efeitos colaterais e dependência, na maioria das vezes não alcançam os resultados esperados e frustram profissional e principalmente o paciente.

Utilização de Canabinoides em Dores Orofaciais

Estudos já comprovaram que os canabinoides são efetivos na promoção da analgesia em dores crônicas de diversas etiologias, principalmente para as neuropáticas associadas a diabetes, vírus da imunodeficiência humana, esclerose múltipla, artrite reumatoide grave e fibromialgia. Eles também apresentaram resultados satisfatórios para controle das dores de origem oncológica, pós-traumáticas, pós-cirúrgicas e neuropatias periféricas. Os canabinoides, demonstraram efeito benéfico para os indivíduos com dor neuropática severa, que sofriam prejuízos na sua vida diária e não obtiveram resposta aos tratamentos com fármacos convencionais ou apresentaram baixa tolerabilidade a estes, em função dos seus efeitos adversos.

A administração terapêutica da Cannabis em paciente com dor orofacial crônicas tem demostrado bons resultados, principalmente quando não temos mais alternativas terapêuticas, podendo, já nas primeiras doses, reduzir em 40% as escalas de dor. Sua eficácia na diminuição da dor e sua atuação como antiemético já nas primeiras doses, elevando a tolerância à dor, aumento da autoestima e melhorando a qualidade de vida, com retorno às atividades diária, entre outros. Os principais estudos em dor são: dores neuropáticas crônicas de qualquer etiologia; fibromialgia; dor (e espasticidade) em esclerose múltipla; dor em lesão medular; dor oncológica e como coadjuvante para melhora do humor e sono. Não é recomendado para dores agudas, episódicas ou pós-cirúrgicas.

Conclusão

No Brasil, ainda temos poucas prescrições na área da odontologia, na maioria das vezes, os Cirurgiões Dentistas nem sabem o que é CBD. Essa falta de informação tem trazido um grande prejuízo na reabilitação dos pacientes com dores e distúrbios da região orofacial. Esses pacientes poderiam se beneficiar de forma satisfatória com a prescrição e o uso do canabidiol, porque, na maioria das vezes, esses pacientes são refratários (resistentes) a toda alternativa de prescrição, levando ao insucesso terapêutico e limitando o restabelecimento do paciente à sua vida social e laborativa. A cannabis medicinal surgiu como uma nova terapêutica para os meus pacientes refratários que apresentam patologias bucais severas, devido as suas mais diversas propriedades. Graças ao seu mecanismo de ação, e ao sistema endocanabinoide, os pacientes vêm apresentando melhoras significativas nos seus quadros dolorosos, nas ansiedades, no sono, nas inflamações e, sendo assim, resgatando a qualidade de vida que antes estava perdida.

Cynthia De Carlo, 51, é Cirurgia Dentista formada há 31 anos pela UNITAU. Pós graduada em Perio Implante e Pediatria. Dentista do CECMedic (Centro de Excelência Canabinoide) e membro da SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis).

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e não correspondem, necessariamente, à posição do Sechat.

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