Divisão no mercado da cannabis faz todos perderem

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(Imagem: Arquivo/Sechat)

Por Marco Algorta

Quando se fala do setor de cannabis, é possível incluir, no mesmo rótulo, cultivadores caseiros, associações, clubes, vendedores de apetrechos e acessórios, produtores, extratores, desenvolvedores genéticos, laboratórios, facilitadores de importação e todos os infindáveis serviços especializados que a atividade necessita. Só de ler a lista já podemos inferir que se trata de um setor profundamente heterogêneo.

Esta heterogeneidade aproveitou a efervescência causada pela cannabis para seu crescimento e consolidação. Estamos vendo cada vez mais pessoas com autorização para cultivar em casa, seja por meio de leis, regulamentos especiais ou processos judiciais. Aumentaram as associações e clubes de produtores que conseguem atender mais pessoas, uma grande mudança na percepção de pacientes e usuários e também empresas de serviços que promovem suas atividades como especialistas em cannabis, com um ar cool e inovador.

Também são  milhares de startups que só de dizer a palavra “cannabis” convencem os investidores com projeções sustentadas por um crescimento vertiginoso e com retornos fantásticos e imediatos. Em 2017, analistas do setor prometeram um movimento de 1,4 bilhão de dólares por ano em torno da cannabis no Brasil. Cinco anos depois, ainda estamos muito longe dessa estimativa.

No entanto, apesar de um claro sinal de que fatos e dados do setor favoreceram o crescimento, ainda vemos divisões. De um lado, laboratórios que, apoiados por lobbies farmacêuticos, usam suas conexões políticas e discursam sobre a segurança de seus produtos e a suposta eficácia comprovada (quando sabemos que 99% das prescrições de cannabis são off label) para monopolizar os mercados. 

De outro, associações que denunciam o avanço do capitalismo no setor, como se esse sistema, para melhor ou para pior, não estivesse em todo lugar, e que seus reflexos não fossem muito mais graves no preço do arroz e do feijão. Esquecem que, no afã de se destacar, de mostrar que um é diferente, todos perdemos.

Os países onde mais pessoas podem viver de cannabis, mais empresas realizam grandes investimentos, mais pessoas podem acessar produtos de qualidade são os mesmos países onde associações de produtores e pacientes conseguiram regular suas atividades. Também são nações, onde o maior número de pequenas companhias conseguiram prosperar sem a necessidade de capital estrangeiro, com cidadãos protegidos e que podem cultivar seus direitos. Estou cansado de falsas dicotomias.

Há muito dinheiro nesta indústria, é verdade. Mas esta indústria não é sustentada pelo dinheiro, e sim pelo progresso na conquista das nossas liberdades individuais. Esse é o verdadeiro pote de ouro no final do arco-íris. Nós que estamos neste setor antes de ser legal, que tivemos que criar atividades que não estavam enquadradas no marco regulatório da época, que sabemos muito bem que as contas chegam todos os meses e temos que encontrar alguma forma de pagá-las, carregamos esse aprendizado em nosso sangue.

Oportunistas sempre existirão, seja na política, na religião, no futebol, na mineração e também na maconha. Para os demais, não nos afastemos de nossos verdadeiros propósitos.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e não correspondem, necessariamente, à posição do Sechat.

Sobre o autor:

Marco Algorta mora no Uruguai e está na indústria da cannabis desde o começo. Ele foi um dos promotores da Câmara das Empresas de Cannabis Medicinal, sendo eleito o primeiro presidente. Marco deu palestras nos Estados Unidos, Canadá, México, Argentina, Uruguai e Brasil, é pai de cinco filhos e magister em narrativa e redação criativa.

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