Como ficou o consumo medicinal de cannabis no Canadá após a legalização?

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(Imagem: Arquivo/Sechat)

Por Tiago Zamponi

Conforme discutido em meu outro artigo, o uso de cannabis para fins médicos foi o precursor da legalização aqui no Canadá. Mas como está agora o consumo para fins medicinais, já que o produto oferecido é o mesmo, não tendo muita variedade de preço e não precisando mais de receituário para comprar.

É importante salientar que o consumo de cannabis para fins medicinais necessita sempre de aconselhamento médico, visto que é importante saber a dosagem certa para tratar cada tipo de doença, a proporção de THC, CBD, CNB, CBG e outros canabinóides. Acredito que um dos grandes desafios hoje é descobrir a dosagem certa e a proporção exata, pois cada organismo tem um nível de tolerância.

Lembro em 2019, primeiro ano de legalização, na empresa para a qual  trabalhava, tínhamos um setor voltado, exclusivamente, para atender pacientes. A única vantagem que vi naquela época foi que eles  podiam comprar cannabis diretamente do produtor e recebiam em casa, enquanto para uso recreativo era apenas via  dispensários. Mas o produto era o mesmo que vendíamos para os dispensários, apenas mudando o rótulo e o tamanho.

Porém, com o passar dos meses, comecei a ver o número de pacientes diminuindo, eis que podiam comprar em qualquer dispensário e até conseguir um preço melhor, sem ter que esperar 5 dias, em média, para recebê-los onde residiam. Ressalto aqui que os pacientes continuavam tendo a orientação médica.

Em última pesquisa do governo canadense, uma em cada cinco pessoas (20%) que vivem nos estados relataram usar cannabis nos últimos três meses, acima dos 14% antes da legalização. É importante notar que a Pesquisa Nacional de Cannabis compartilhou os resultados até 2020.

Antes de entrar nos resultados, faço uma crítica a este estudo  que, na minha opinião, seria  interessante se não apenas perguntasse sobre o uso atual e histórico da cannabis, mas também o que  mudou após a legalização.  Então, poderíamos determinar com mais precisão se mais pessoas começaram a usar cannabis após a legalização ou se  apenas se sentiram mais à vontade de  revelar  o uso.

Essa ressalva à parte, o controle da dor é a principal razão médica para o uso de cannabis para todos, exceto os mais jovens. Cerca de três em cada cinco pessoas com 15 anos ou mais (59%) que usaram cannabis por motivos médicos em 2019/2020 citaram o controle da dor como motivo do uso. Além disso, outro terço pode usar cannabis por problemas (37%) ou com ansiedade ou depressão (36%).

Fonte:Statistics Canada

Quase três quartos (72%) das pessoas com 65 anos ou mais que consumiram cannabis por motivos médicos o fizeram para aliviar a dor. No entanto, o consumo para tratar ansiedade ou depressão foi o principal motivo de uso médico entre jovens de 15 a 19 anos (63%)

Fiquei impressionado com o fato de que grupos etários mais jovens estão usando cannabis para ansiedade e depressão. A título de debate, deixo aqui uma reflexão: temos maiores incidências destas indicações ou estamos simplesmente mais dispostos a admitir isso?

Fonte:Statistics Canada

Como ponto de interesse, muitos pacientes que vivem com dor crônica não bem controlada desenvolvem comorbidades como insônia, ansiedade e depressão. Quando a cannabis funciona para melhorar o controle da dor, geralmente leva a uma descontinuação completa ou a uma redução significativa nos medicamentos usados para tratar as outras condições associadas. A cannabis medicinal não é uma bala de prata, mas quando funciona, pode ter um impacto positivo significativo na saúde física / mental e na qualidade de vida.

De acordo com a pesquisa as pessoas que consomem cannabis exclusivamente por razões médicas são mais propensas a consumir cannabis em alimentos ou bebidas ou em um método alternativo em comparação com outros usuários de cannabis, com mais de um em cada quatro usuários de cannabis para fins médicos exclusivos e um em cada seis usuários para fins não médicos exclusivos. Tanto médicos quanto não médicos relataram consumi-lo em alimentos ou beber nos últimos 12 meses.

Contudo, fumar permaneceu o método de consumo de escolha para todos os tipos de usuários de cannabis em 2019/2020. Quase três em cada quatro usuários para fins não médicos exclusivos (73%) e para fins médicos e não médicos (70%) fumaram cannabis como seu principal método de uso. Além disso, 38% dos usuários médicos exclusivos relataram o tabagismo como o método mais utilizado. Pesquisas como essa nos permitem traçar um panorama mais aprofundado do uso exclusivo de cannabis medicinal e não medicinal em todo o Canadá visando entender melhor esse mercado.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e não correspondem, necessariamente, à posição do Sechat.

Sobre o autor:

Tiago Zamponi é advogado, mora no Canadá, trabalha com desenvolvimento de negócios e atualmente é diretor de vendas na Molecule, uma empresa canadense de bebidas de cannabis.

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