Cannabis, esporte e doping

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(Imagem: Arquivo/Sechat)

Por Jimmy Fardin

No universo dos esportes o cenário se repete. O uso de substâncias que podem alterar a performance dos atletas frente a um estímulo ou ainda representar um risco para eles é considerado doping

A WADA (World Anti-Doping Agency) proibia qualquer canabinoide, natural ou sintético, ou que mimetizassem seus efeitos quando, em 2004,  foi criada a primeira lista e,  em 2018, foi liberado o uso do CBD isolado em época de competição. A Olimpíada de Tokyo foi a primeira competição de âmbito global a ter atletas usando o CBD isolado (um dos mais de 200 canabinóides da planta).

Apesar de já ser um avanço enorme, frente à demonização que a cannabis sofria e sofre, ainda é um passo curto. Evidências científicas confirmam que os efeitos dos canabinóides combinados, chamado efeito entourage ou comitiva, promovem um resultado muito melhor para o organismo.  

Os óleos full spectrum (amplo espectro de canabinóides) ou broad spectrum (sem THC),  por exemplo, ainda continuam proibidos. O tetrahidrocanabinol (THC) é o canabinoide como maior efeito psicoativo no corpo. Responsável pelo “barato” encontrado no uso adulto, é responsável também pelo combate às dores, é  anti inflamatório, ajuda no foco e na diminuição da ansiedade. O  mais comercializado é o delta 9-THC, entretanto, o efeito depende da dose administrada e, combinado ao CBD, tem um efeito mais controlado no paciente.

Seus derivados como o COOH-THC (carboxi THC) e 11-HO-THC (hidroxi -THC) é que são achados nos testes de dopagem (sangue, urina e cabelo). Como o THC acima de 0,3% é proibido em vários estados americanos e em outros  países, uma alternativa encontrada foi o delta 8 THC. O derivado do canabidiol apresenta efeito psicoativo menor, por ser uma molécula mais estável e “livre” para comercialização.  Após o grande sucesso do delta 8 como uma alternativa legal à disponibilidade mais controlada do delta 9 THC, a indústria da cannabis buscou outros canabinóides menos conhecidos para competir no mercado diversificado de cannabis. Um dos mais novos e promissores é o hexa hidrocanabinol, geralmente abreviado para HHC.

O Hexa Hidrocanabinol é um THC conhecido há muito tempo pela ciência, mas até recentemente não era discutido pelos usuários de cannabis. HHC é um canabinóide menor; ocorre naturalmente na cannabis, mas em quantidades muito pequenas para tornar a extração econômica. 

A maioria dos canabinóides pode ser convertida em outros canabinóides alterando a química das moléculas. Como o delta 8 THC e o delta 10 THC. O HHC comercial é feito de CBD derivado do cânhamo em laboratório por meio de processos químicos.  Além disso, há uma grande vantagem legal sobre o delta 8 e o delta 9: não é chamado de THC.

Embora o HHC não seja tecnicamente um THC, produz efeitos semelhantes, porém a dose tem que ser bem maior. Relatos de usuários geralmente descrevem o efeito do HHC como algo entre delta 8 e delta 9 THC, em termos de psicoatividade. Em miligramagem é menos potente que o Delta-8, que é metade do Delta-9. Praticamente tudo o que sabemos sobre os efeitos colaterais do HHC se trata de relatos.

E quanto ao doping?

Parece que o HHC pode não se decompor no corpo da mesma maneira que o THC. Ao contrário das formas delta-8, delta-9 e delta-10 de THC, há algumas evidências de que não se metaboliza em hidroxi-THC ou carboxi-THC. Mas isso não foi estudado o suficiente. Até agora ninguém sabe se o HHC não deixará evidências de uso no sangue, urina ou cabelo. Seria esta então, uma forma de burlar os testes de dopagem?

Cada vez mais estudos vêm confirmando que THC, HHC, delta 8 ou 9 não alteram a performance ou ferem o espírito esportivo. Por mimetizarem substâncias que endogenamente, sob demanda, o nosso próprio corpo produz, não deveriam ser consideradas como doping

Atletas estão submetidos às mais variadas pressões, e alterações emocionais que desequilibram sua homeostase. A cannabis nada mais é que um regulador desse equilíbrio interno. No MMA o THC já foi liberado. Exatamente por entender que a substância não altera a capacidade do indivíduo. 

Infelizmente, por ser proibido, alimenta uma busca por alternativas de burlar os testes de dopagem e leis. Quando, na verdade, seria muito mais prudente a liberação e o uso consciente, prescrito por um médico experiente e que acompanhasse o atleta, assim como as outras substâncias liberadas. 

Como todo ano a WADA se reúne para avaliar as substâncias na famosa lista de produtos proibidos, espera-se que as evidências científicas sejam relevantes para que liberação dos  canabinoides, mesmo em época de competição, tire mais um peso desnecessário nas costas do competidor e equipe médica que o acompanha. 

Vamos lembrar que ao elaborar a lista, a cannabis era proibida e vista como uma droga ilícita no mundo inteiro. Assim como o esporte evoluiu muito, acreditamos que as organizações reguladoras sigam o mesmo caminho.  Que Paris 2024 traga uma luz a esse assunto!

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