Cannabis, além da medicina e uso recreativo: uma planta

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Adriana Russowsky (Imagem: Arquivo)

Por Adriana Russowsky

A conexão e dependência da saúde do ser humano com a alimentação e plantas é comprovada pelas medicinas tradicionais e por pesquisas científicas atuais e confiáveis. Elas fazem parte da história da humanidade, assim como os animais, nos servindo a existência (ou coexistência). Proporcionam micronutrientes que permitem nosso corpo “funcionar” adequadamente e substâncias químicas curativas. São sistemas biológicos com tecnologia de ação única para cada ser vivo. 

A cannabis vem influenciando a maneira como a fitoterapia é aplicada, trazendo mais adeptos às medicinas “naturais” e movimentando ações culturais. Uma força aos caminhos para remodelação estrutural de estigmas sociais e de ações necessárias para o meio-ambiente, ela também movimenta a economia e circula entre mais de um mercado.

Comparando a todo um mundo de plantas, não desmerecendo sua magnitude, ainda é apenas mais uma planta. Poderia futuramente tornar-se uma monocultura como o trigo, banalizada ao ponto de ser imprópria ao seu consumo em alguns casos? Trazendo esta visão, entendimento e argumentação, as questões de debate e definições pelos órgãos regulamentadores podem ser mais favoráveis para uma abertura de caminhos corretos na nação e na humanidade.

Fitocomplexos: a tecnologia do Reino Plantae e Fungi

É fascinante a forma como estes reinos desenvolveram um sistema fitocomplexo, que gera uma mistura de moléculas bioativas provenientes do metabolismo secundário ou especial. No caso da nossa querida erva, estamos falando de extratos repletos de canabinoides, de óleos essenciais poderosos em terpenos e flavonoides, de uma sinergia química de componentes única, porém variável, o tal do complexo Entourage ou Efeito Comitiva. O usam para se defender de microrganismos e de animais, para atrair insetos polinizadores, ou ainda a chamada alelopatia, competição ou colaboração com outras espécies. O ser humano percebeu a importância desses constituintes na terapêutica há milhares de anos, inclusive, fazem parte da história cultural e de sistemas de saúde, bem como da evolução da indústria. 

Infelizmente, nem sempre os modelos utilizados para avaliar a atividade farmacológica em alvos biológicos são experimentos lineares e com bons dados para reprodução. Nem sempre conseguem traduzir a magnificência de ação do fitocomplexo, visto que as relações entre ações e resultados são múltiplos e sofrem influência de muitas variáveis. 

A maneira como são cultivadas, o “terroir” apropriado, o conteúdo específico de cada genética, a cobaia que o experimenta, a utilização ou não de pesticidas – sim, é possível criar cannabis sem “defensivos” ao contrário do que muitos especialistas pensam. Estamos exigentes e informados como resultado de uma era da comunicação tecnológica global, seja qual for o intuito da utilização. O que interessa é qualidade do insumo, a padronização das moléculas terapêuticas e sensoriais que se deseja da matéria-prima, tudo isto agregado a ações e iniciativas que tragam proveito para o coletivo. É a integralidade da apreciação do uso. 

Plantas: A origem da indústria farmacêutica e a forma moderna como atuarão nos novos sistemas de saúde pública

Da papoula veio o ópio, que veio a morfina e hoje dezenas de moléculas que foram sendo sintetizadas desta base. Com a intenção de investigar e controlar o processo biossintético das espécies vegetais e da sede de descoberta de novas doenças e novos tratamentos, a ciência desenvolveu técnicas de extração e isolamento, que culminaram na identificação de importantes substâncias ativas. Quando medicamentos são produzidos a partir das substâncias isoladas das plantas, se denominam fitofármacos.  Então, não seria prático e coerente termos um belo jardim de papoulas e tratar questões simples de saúde em vez  de lotar os sistemas públicos e onerar taxas exorbitantes ao nosso bolso sem controle verídico? Em meio a tantas argumentações contra a solução só é uma: a iniciativa de educação e informação por parte da governança e de empresas. Os envolvidos com as iniciativas das práticas integrativas complementares e das farmácias vivas no país podem nos trazer algumas respostas.

Neste texto, não estamos indo contra a tecnologia. Estamos falando sobre ela. Tecnologia, se bem feita, é progresso. E precisamos da morfina ou derivados em questões importantes de dor. Estamos somente relembrando a partir de onde ela foi criada. Da essência e das alternativas disponíveis que hoje beneficiam o todo. A fitoterapia é realizada e inserida entre paradigmas, hibridizadas pela velocidade ao acesso e troca de informações entre várias culturas e ciências.

A realidade atual e como tendência é a observação de uma conexão entre conceitos tradicionais das medicinas ancestrais com a incorporação de novas descobertas por meio da pesquisa científica e de tecnologia, acabando com o empirismo. Informações acumuladas sobre botânica, farmacognosia, fito terapêutica, química farmacêutica, funcionamento bioquímico e fisiológico do organismo têm valor inestimável para a humanidade e natureza. Trata-se de um elo entre os seres e o planeta Terra, demonstrando a expressão desta conectividade via cura, alimentação e medicina. Isto embasa o ambientalismo que garantirá a preservação da raça humana e do planeta. 

A grande questão, em um mundo pós-pandemia e repleto de mudanças, é saber como tornar sustentável em todas as vertentes que abrange (governança, meio ambiente e sociedade), a aplicação deste retorno de práticas ancestrais em prol de uma comunidade com melhor funcionamento e em um planeta com um futuro não tão caótico.

Cannabis não é somente fibra e canabinoides

Os canabinoides principais vêm sendo amplamente estudados enquanto a fibra, embora seja histórica, só agora se torna objeto de desejo para maior aproveitamento do  potencial do tecido. Mas ainda existe muito o que se falar sobre o que ela nos traz.

Contidos nos extratos e óleos essenciais, os flavonóides são substâncias antioxidantes que apresentam diversas ações terapêuticas, tais como:

  • > Apigenina – anti-inflamatório/anticâncer/cardiovascular;

  • > Antocianinas – antioxidante/antibacteriano;

  • > B-sistosterol – anti-inflamatório/anti aterogênico;

  • > Canflavina A – antiagregativo/neuroprotetor/anti-inflamatório;

  • > Canflavina B – analgésico/anticâncer/antioxidante;

  • > Isovitexina – antiinflamatório/anticâncer/antioxidante;

  • > Vitexina – anticâncer/neuroprotetor;

  • > Silimarina – função hepática/antioxidante/anti-inflamatório/cardioprotetor;

  • > Quercetina – antioxidante/antiobesidade/cardioprotetor;

  • > Luteolina – anticâncer/imunomodulador/neuroprotetor;

  • > Kaempferol – antimicrobiano/antioxidante/antitumoral.

Os terpenos já caíram no conhecimento da população geral, e se já eram amplamente utilizados na cosmética, hoje são incluídos em produtos alimentícios e bebidas como marketing para poder trazer ao consumidor as experiências funcionais que são percebidas com a utilização da planta. Os complexos fitoterápicos de grandes marcas trazem óleos essenciais de outras fontes misturados aos extratos canábicos para otimizar fins devidos, além de baratear o custo. Assim como os flavonoides, definem características de cepas de cannabis, além de nortear a experiência do consumo.

Mulher sentindo o odor da lavanda (Imagem: Freepik)

O beta-cariofileno, por exemplo, de potente ação antiinflamatória, é encontrado na copaíba. O linanol, na lavanda. O mirceno, na manga. Os pinenos, no alecrim. Entre diversos e tantos outros. Enquanto a ciência evolui em embasamento, as empresas em criatividade, educação e informação se potencializam, bem como o acesso da população a terapias naturais.

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