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Minha introdução

Caros amigos, esse é um momento importante para minha vida científica e como médico. Há muito anos eu pesquiso e acompanho pacientes que fazem uso de medicações derivadas da planta Cannabis Sativa, aquela mesma da maconha, do tabu, da guerra contra as drogas, do estigma do maconheiro – que é absorto, desatento e perdido na vida… Bem, essa imagem está mudando. E o tempo verbal está correto, é o gerúndio. Melhor, a velocidade da transformação é relevante. Ao longo de meus quase 45 anos de vida, nunca tive tanta certeza de que um paradigma poderoso está sendo quebrado no mundo da farmacologia. O Vegetal que origina a maconha, droga psicoativa, também dá origem a cura. Aliás, ele é mais um agente para a cura do que propriamente uma droga que destrói o organismo humano. Atualmente, cerca de 35 países já regulamentaram o uso da maconha medicinal para tratar pacientes com doenças graves e raras. Pesquisas para o uso contra males comuns e atuais, como a depressão, também estão em estágio avançado, e com gente grande por trás. Gente grande que quero dizer são os maiores produtores de remédios do mundo, a chamada “Big Pharma”. A Cannabis também está a um passo de produzir uma verdadeira revolução no tratamento de dores em geral, e na consequente diminuição do sofrimento causado pela dor. Pacientes de câncer tem tido excelentes resultados na redução dos efeitos de desconforto extremo causados por “quimios” e “rádios”. A maconha medicinal já provou ser um anticonvulsivante poderosíssimo – reduzindo surtos epiléticos que fritam o cérebro de portadores de síndromes, como a Síndrome de Dravet. Quis falar um pouco do contexto atual neste começo para contar para vocês um pouco da história da relação milenar que existe entre o homem e essa planta. O caminho para regulação do uso da maconha medicinal no Brasil pode ainda ser longo, mas a oportunidade para destruir um tabu pobre e ultrapassado nunca foi tão grande.

Breve história na Antiguidade 

A Cannabis foi uma das primeiras plantas a serem cultivadas pelo homem, alguns artigos descrevem sua utilização há mais de 12.000 anos para diversas finalidades. O primeiro relato escrito sobre utilização medicinal é datado de 2.727 a.C, pelo imperador chinês Shen Neng, que utilizava a planta para tratamento dos sintomas de doenças que não eram totalmente conhecidas na época, como gota, doenças reumáticas ou mesmo malária. Encontramos também referência no livro Atharvaveda, um dos livros sagrados do hinduísmo, escrito entre 1.200 a 800 a.C, o livro descreve sobre utilização da Cannabis para fins medicinais e religiosos. Da Ásia e África, a Cannabis é levada para Europa, onde foi utilizada para fins medicinais na Grécia e para confecções de tecidos em velas para barco na Itália.

Do início da era Cristã até os tempos de hoje 

A utilização da planta foi crescendo pela Euroásia e África, e por volta do ano 70 d.C, no livro que hoje é reconhecido como o primeiro livro de farmacologia do mundo, “De matéria médica” de Pedânio Dioscórides, descreve seus efeitos anti-inflamatórios e sua utilização no tratamento de doenças reumáticas. Sua utilização para tratamento de crises convulsivas, foi descrita inicialmente em 1464 pelo médico medieval árabe Ibn al Badri, que receitava haxixe para tratar a epilepsia do filho do tesoureiro do califado de Bagdá. A data mais aceita para sua entrada no Brasil é de 1808, trazida por escravos africanos. Em 1839 no medico irlandês, residente na Inglaterra, descreve no periódico médico “PROVINCIAL MEDICAL JOURNAL” a utilização de Cannabis, com bons resultados, no tratamento de epilepsia refrataria em uma criança indiana. Em 1889, o periódico cientifico “The Lancet”, um dos mais respeitados do mundo até os dias de hoje, publica artigo sobre a utilização da Cannabis para o tratamento de pessoas com dependência em ópio. Classifica a cannabis como droga de saída e não como droga de entrada como ficou conhecida nos dias atuais.

Brasil

No Brasil, por volta de 1905, a Cannabis era encontrada em farmácias e vendida em forma de elixir ou cigarro, para tratamento de asmas, insônia, dores, entre outros. As marcas nacionais mais conhecidas na época eram os cigarros índios e as cigarrilhas Grimault. Nesse período, sua utilização na América do Norte crescia de forma exponencial e por ser consumida principalmente por árabes, chineses, mexicanos, índios e negros e competir diretamente com produtores de álcool e algodão, passar sofrer uma forte oposição comercial e preconceitos religiosos, moralistas e anti-imigração.

 Em 1925, na convenção de Genebra, a Cannabis é incluída como uma droga perigosa e ilícita, parte dessa decisão foi tomada após o médico brasileiro, Pernambuco Filho, descrever que seus efeitos eram semelhantes a utilização de Ópio.

Cannabis vira droga & Dr. Mechoulam

Já em 1961, a ONU sugere ações coordenadas e universais contra as drogas, incluindo a Cannabis, e afasta ainda mais suas pesquisa para fins medicinais. Mas isso não foi suficiente para desanimar alguns núcleos de pesquisas, como o da Universidade Hebraica de Jerusalém, que em 1963, liderada pelo Prof. Dr. Raphael Mechoulam consegue separar da planta os primeiros fitocanabinoides como o canabidiol (CBD) e o delta-nove-tetrahidrocanabinol (THC).

Em uma parceria entre a Universidade Hebraica de Jerusalém e a Universidade Federal de São Paulo, foi realizado o primeiro estudo da utilização da Cannabis para tratamento de epilepsia, com bons resultados clínicos. Na década de 80, um grupo de pesquisadores americanos, liderados pela Profa. Allyn Howlett do St. Louis Medical, descobre um receptor específico para canabinoides, o CB1. Como não existe um receptor especifico para substâncias exógenas, inicia-se uma pesquisa sobre um possível endocanabinoide, ou seja, a procura de uma substância semelhantes aos cannabinoides encontrados na planta, porem produzido em nosso organismo. Após 2 anos da descoberta do CB1, foi identificado uma molécula endógena que atuava nesse receptor. Como acreditava-se que a Cannabis estava relacionada a felicidade e paz de espírito, essa molécula foi batizada como Anandamida (Ananda em sânscrito, significa “felicidade extrema”).

Para onde vamos agora?

Somente após quase 40 anos da descoberta dos fitocanabinoides pelo Prof. Dr. Raphael Mechulam, conseguimos identificar e entender o sistema endocanabinoide e como se aplica nas doenças conhecidas. Em 2012, uma menina americana com uma forma rara de epilepsia refrataria, a síndrome de Dravet, utiliza óleo rico em canabidiol com boa melhora e tem sua história contata, motivando outras mães de todo mundo a procurar esse tratamento incluindo mães brasileiras. Em 2014 essa terapia foi iniciada na criança brasileira de 5 anos Anny Fischer. O filme Ilegal do cineasta brasileiro Tarso Araújo (tem no Netflix) mostrou a burocracia para se obter a medicação e os efeitos benéficos da Cannabis no tratamento de algumas epilepsias refratarias. O relato dessa história motiva mães de crianças com síndromes raras a procurar um alento nos resultados dessa terapia. Se hoje estamos aqui conversando sobre esse tema é devido a força e coragem dessas mães heroicas, que fizeram o que a ciência não conseguiu fazer – por o assunto no centro do debate! Parafraseando um escritor brasileiro que gosto muito, Francisco Cândido Xavier, “Oração de mãe arromba as portas do céu”, ousaria a dizer que também arrombam as portas da sociedade nacional, da ANVISA e do STF. A essas mães nossos mais sinceros agradecimentos!

Pedro Antônio Pierro Neto

Dr. Pedro Antônio Pierro Neto possui formação em Medicina e Residência em Neurocirurgia Funcional, se dedicou ao segmento de dor e ao método canibidiol cujo qual hoje é um dos primeiros médicos a prescrever no Brasil. Sua formação expandiu suas especializações nas terapias cirúrgicas para dor, tratamento de movimentos e cirurgias psiquiátricas. Se formou em 2000 e hoje a abordagem é centrada no método cannabis medicinal. Dr. Pedro Pierro é Membro da Sociedade Neurocirurgia, Sociedade Brasileira para estudo da Dor (SBED) e Inter-Americana de Cirurgia de Coluna Minimamente Invasiva.

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