A importância da mão de obra qualificada para o trabalho no cenário da cannabis no Brasil

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(Imagem: Arquivo/Sechat)

Por Claudete Oliveira

A legalização da Cannabis no Brasil nas diferentes áreas (medicinal, fibra e nutracêutica) se bem articulada terá potencial de gerar receita ao País, o que levaria a criação de empregos e a abertura de novas possibilidades de frentes de trabalho, em um primeiro momento para os profissionais da área da saúde. Não perdendo de vista a oportunidade de geração de receita para indivíduos e comunidades desproporcionalmente afetados pela Guerra às Drogas. 

Nos Estados Unidos várias ações já vêm ocorrendo nesse sentido, iniciativas como a da Força de Trabalho de Cannabis do Estado de Nova York  (Cannabis Workforce Initiative), uma colaboração entre a Escola Estadual de Relações Industriais e Trabalhistas de Nova York e o Instituto de Desenvolvimento da Força de Trabalho. Instituições como essas fornecem treinamento e\ou adequação dos profissionais que queiram trabalhar na área de saúde e ajudam os empregadores a repensar sua abordagem de contratação. Segundo eles, o potencial de formação e abertura de mão de obra/empregos relacionados à Cannabis foi uma das forças propulsoras para o processo de legalização da Cannabis em NY. Uma pesquisa profunda em território nacional para mapear quais seriam as necessidades, à luz dos diferentes cenários de abertura, pode ajudar a entender a necessidade referente aos tipos de mão de obra que seriam necessárias no Brasil. Inclusive, pensando na criação de novos modelos de trabalho e considerando as diferentes áreas geográficas e aspectos humanos, econômicos e sociais.

Artigo mostra as diferentes possibilidades de trabalho.

Trabalhos criados caso a cannabis estivesse legalizada a nível federal (Fonte: New Frontier)

A imagem acima mostra o hipotético cenário de uma liberação total da Cannabis nos EUA, último relatório da New Frontier mostrando o setor de varejo, seguido pelo administrativo e manufatura como as maiores fontes de emprego. 

Os profissionais da saúde no cenário atual

Cada profissional da saúde tem um papel singular no cuidado do paciente. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, equipe de farmacêuticos, nutricionistas, psicólogos, entre outros, mesmo sem uma legislação que legalize o uso da Cannabis no Brasil, o crescimento do uso terapêutico cada dia mais requer uma formação e preparação de mão de obra qualificada com uma base de conhecimento especializada. Sem contar os que estão relacionados de forma indireta como advogados, agrônomos e cultivadores (no caso da produção local das associações e orientação a pacientes com HC-Habeas corpus).

O papel do enfermeiro

Está centrado em fazer a ponte entre os outros profissionais que avaliam esse paciente. Quando pensamos em atenção ao paciente, o enfermeiro é fundamental no planejamento do cuidado. Sem ele, os cuidados não vão ser realizados de uma maneira adequada. Estes profissionais estão situados em cuidados comunitários, cuidados paliativos, ambientes hospitalares e outros. Portanto, precisam ter informações válidas às perguntas dos pacientes sobre o uso de Cannabis medicinal para vários distúrbios de saúde. Pois, como citado anteriormente, apesar de não existir uma legislação definida nesse atual momento no Brasil, há uma chance real destes profissionais se depararem com pacientes que fazem uso da Cannabis e que a simples suspensão do tratamento para um procedimento clínico, por exemplo, pode provocar prejuízos à saúde. 

Nos melhores cenários, precisam estar bem informados sobre os efeitos terapêuticos (e de reações adversas) da Cannabis medicinal e receber uma educação sobre os diferentes medicamentos existentes no mercado, por parte de farmacêuticos. Devem ter o máximo de conhecimento possível sobre os vários produtos, bem como a forma de administração e a compreensão do nível de desconforto desse paciente com relação às principais reações adversas. Inclusive, saber responder as perguntas de seus pacientes.

Equipe de enfermeiros canábicos. (Fonte: @iedmed)

O papel do farmacêutico 

No processo de legalização do uso de Cannabis no mundo, nas diferentes indústrias, assim como em um cenário de aumento de estudos que validam seu uso nas últimas décadas, a farmácia precisa acompanhar esse ritmo de crescimento, tanto das indústrias de Cannabis no mundo quanto dos estudos que vem a cada dia mais validando seu uso, à medida que a maconha medicinal se torna popular no Brasil. As faculdades de farmácia e os cursos voltados para esse público precisam acompanhar esse crescimento por meio do processo de formação de força de trabalho capacitado para atuar nos diferentes nichos. Algumas instituições já possuem programas de certificação de pós-graduação on-line em estudos terapêuticos de Cannabis voltados para o profissional farmacêutico, como a Unyleya e, em pouco tempo, o Instituto Huomaren também se juntará a essa força de capacitação. Elas contam com nomes de referência na área acadêmica e de ensino, muitos inclusive com experiência em Cannabis. A formação precisa ter como um dos pilares fornecer um conhecimento mais aprofundado sobre a produção e disseminação segura de informações relativas a produtos de Cannabis. Grupos técnicos de discussão a respeito da regulamentação da atuação deste profissional já vêm sendo criados no Brasil, como o GTT do Conselho Regional de Farmácia do Rio de Janeiro, imagem abaixo.

O profissional farmacêutico poderá atuar como parte ativa em associações de Cannabis medicinal (realidade atual), desde a produção até a atenção farmacêutica a pacientes e prescritores. Áreas como a indústria também precisam ser consideradas, incluindo vendas, representante de empresas farmacêuticas, técnicos de laboratório, controle/garantia de qualidade, desenvolvimento e fabricação de produtos. No âmbito da pesquisa, mais investigações precisam ser feitas para a compreensão sobre o impacto da droga e onde ela se encaixa nos regimes de tratamento farmacológico, interações medicamentosas, assim como das diferentes vias de administração versus formulação, pensando em uma melhora da biodisponibilidade dos canabinoides no organismo.

Formação de grupo técnica de Cannabis medicinal no Conselho Regional de Farmácia do Rio de Janeiro. (Imagem: Arquivo pessoal)

A formação do médico 

O mundo já vem discutindo a formação do médico em termos de humanização e uso de ferramentas em terapias complementares, e não somente nas terapias tradicionais como Medicina Tradicional Chinesa, Acupuntura, Fitoterapia, entre outras. A Cannabis é uma quebra de paradigma nesse universo, contexto de substância única-alvo único da farmacologia clássica. Precisa ser olhada como uma planta medicinal quando falamos do seu efeito comitiva e de óleos full spectrum. Capacitar os profissionais de saúde com esse pensamento é um desafio  encarado por algumas das instituições e profissionais de ensino, como a plataforma Sechat Academy, Wecann, APEPI escola, Instituto Huomaren (em processo de formação), UNYLEYA, Inspirali, entre outros, que trazem uma abordagem integrativa e um pensamento e conceito de fitocomplexo e não de substância única-alvo único. 

Curso Imersivo para Prescrição de Cannabis
(Imagem: Arquivo pessoal)

Outro ponto a ser focado é a formação do médico em geral a respeito do sistema endocanabinóide, que é uma realidade consolidada. Mesmo que não trabalhe com a Cannabis, em algum momento poderá se deparar com pacientes que fazem uso da planta  nas suas diferentes formas. Como ficaria a interação medicamentosa, por exemplo, pensando em uma polifarmácia desse paciente? São questões a serem debatidas que vão além das legislações.

Esses são alguns dos profissionais que perpassam a realidade do paciente. Uma capacitação consciente que tenha como pontos principais um olhar humanizado desse profissional ao paciente e informações baseadas em conhecimentos técnico-científicos podem inclusive ajudar na mudança do atual cenário da Cannabis medicinal no Brasil.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

Sobre a autora:

Claudete Oliveira é graduada em Farmácia industrial pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Especialista em gestão e docência no ensino superior e em tecnologia em Cosméticos pela UNIARA (Universidade de Araraquara). Mestre em ciências por Farmanguinhos – FIOCRUZ, na área de produtos naturais, atualmente é doutoranda em Farmanguinhos – FIOCRUZ, com Cannabis medicinal. Coordenadora técnica de beneficiamento da APEPI – Associação de apoio a pacientes e pesquisa em Cannabis medicinal. Professa do curso de pós graduação em Cannabis medicinal na UNYLEYA. Professora de Graduação da Universidade Castelo Branco. Secretária executiva do Grupo de trabalho Técnica do Conselho Regional de farmácia do Rio de Janeiro.

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